Santiago Maior
Na noite em que tu nasceste o velho Américo Faria
Ofereceu-me um golfinho
Era de vidro esse delfim
Eu não cabia em mim, tal era o deslumbramento
Celebrámos bebendo vinho, de uma garrafa de Casal Garcia
Foi desmedida a alegria
E uma imensa euforia, invadiu-me de repente o pensamento
Naquela madrugada quente de verão, o calor do vento suão
Trazia consigo a boa-nova
E na hora anunciada, a tеrra alvoroçada, toda ela se renova
Agora tu е eu somos um
Navegamos no espaço que em nós perdura
Somos pedaço de nervo comum
Tu retrato e eu moldura
Somos farinha do mesmo saco
Carne do mesmo naco
Rios que desaguam na mesma foz
Somos o tempo que por nós passou
O pão que o diabo amassou
O sangue bastardo dos nossos avós
Somos riso, somos pranto
Alimentamo-nos de sonho e de espanto
Artesãos da caneta e do cinzel
Tu benzedura eu quebranto
Sem provarmos assim, no entanto
O gosto amargo do fel
Somos a cara e a caraça
Animais da mesma raça
Filhos de um deus menor
Somos o vento que nos abraça
Duas gotas escorrendo na vidraça
Somos Santiago Maior
Somos pão, somos fermento
Estrelas de um firmamento que nos ilumina o caminho
Eu semente e tu flor, poema em forma de amor
Palavras escritas em desalinho
Somos pele, somos suor
O lado errado da dor que nos tolda os sentidos
Duas sombras na cidade
Duas figuras sem idade
Em busca dos passos perdidos
Tu STK eu Ventura
Uma espécie de doença sem cura
Isto de vivermos em nós outros personagens
São os olhos de quem procura, à noite numa rua escura
Restos de nós flutuando noutras paragens
São fantasmas, hologramas
Risos sarcásticos de ciganas ecoando na nossa memória
São facas, são gadanhas, são punhais
Estilhaços de nós à deriva nos umbrais
Esta é a nossa história
Somos farinha do mesmo saco
Carne do mesmo naco
Rios que desaguam na mesma foz
Somos o tempo que por nós passou
O pão que o diabo amassou
O sangue bastardo dos nossos avós
Somos o riso e o pranto
Alimentamo-nos de sonho e de espanto
Artesãos da caneta ou do cinzel
Tu benzedura eu quebranto
Sem provarmos assim, no entanto
O gosto amargo do fel
Somos a cara e a caraça
Animais da mesma raça
Filhos de um deus menor
Somos o vento que nos abraça
Duas gotas escorrendo na vidraça
Somos Santiago Maior
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